quarta-feira, 21 de maio de 2014

Múltiplo...múltiplo...

Um rapapé respeitoso
CARLO EMILIO GADDA 


A pequena casa de persianas verdes é abraçada por uma guarda de ciprestes e dista não menos de 400 metros da Villa Guidi e uns cem da avenida. O bonde número 13, depois das 9h, passa de hora em hora, até a meia-noite. Da margem oposta do rio, avista-se a breve série de janelinhas iluminadas lançando na solidão e no escuro da avenida um sinal do mundo ainda acordado, ainda vigilante: vêem-se as janelinhas correrem ao longo do negro pavoroso que as tílias coagularam no paredão. Do alto, a cidade, as torres de madrepérola, as luzes de cada ponte parecem amigas e próximas: um grito poderia atingir as ameias das torres, descer às mesinhas dos cafés: até as pessoas que estão se deleitando com os sorvetes. Não, nenhum grito seria ouvido nos cafés: nenhum grito que saísse da pequena casa de persianas verdes, a cem metros da tenebrosa avenida. Nem mesmo o motorneiro e o cobrador do bonde número 13 poderiam ouvi-lo, já que a geringonça rodando sobre os trilhos, saltitando a cada articulação, faz tamanho barulho que os deixa surdos, obriga-os a conversar em voz alta. E, depois, mal o bonde acaba de passar, tudo fica escuro de novo: e os grilos são os únicos donos da noite, das colinas. Os grilos, apesar de inumeráveis, não podem dar testemunho de nada, nem ir à delegacia dizer nada, nem aos guardas: nem chamar por gente.
A língua das pessoas, sobretudo a das mulheres, mas também a dos caixeiros das vendas lá de baixo, do bairro, e até a de gente muito séria, de outro lugar, dizia que dona Esther andava promovendo...: ou seja: que era muito hospitaleira com os conhecidos: uns sujeitos (quase sempre) muito distintos. O lugar ermo, dizia-se, era propício à hospitalidade. Para cada senhor que se via parado junto ao portão da casinha solitária, esperando o estalo da fechadura elétrica, tinha estado logo depois ou pouco antes uma senhora, no mesmo portão, tal qual mente distinta e na mesma atitude de espera. A meninada já tinha notado.
Outra opinião, em vez disso, era de que as raras visitas, masculinas e femininas, não tinham qualquer ligação entre si. As mulheres eram velhas amigas, uma enfermeira, ou a costureira, ou uma colega de colégio de muitos anos atrás: ou moças que recorriam à dona Esther para um conselho, para saber onde podiam fazer o enxoval mais barato. Os homens, poucos e sérios, também eles eram conhecidos perfeitamente inócuos: o dos impostos, o da luz, o do gás não, que não chega lá em cima: ou o advogado Farri, o médico, um entregador de mantimentos da vila, ou algum mendigo pedindo esmola. Dois ou três eleitos do coração (de antanho), ao que parece, e agora velhos aposentados: aos quais, dizia-se, a velha amiga não tinha coragem de recusar um auxílio para os apertos dos tempos novos e terríveis, um "adiamento", como eles o chamavam, com um sorriso melancólico: nos dias magros do fim do mês, mais frequentemente.
Quando o Cavaleiro Barbetti também precisou recorrer à coragem, como todos nós, e ajuntara os ouros e as jóias de sua querida Irma, a inesquecível companheira de 33 anos de vida (que lhe faltara há um ano exatamente), e daquelas jóias fizera um pacotinho e o enfiou no bolso: com todo o cuidado possível. Mirou-se de novo no espelho, virou-se, torceu o pescoço tentando enxergar-se... de lado, já que atrás não conseguia: alisou os bigodes, despediu-se com um leve rapapé, cheio de decoro e de melancolia: o ensaio geral, talvez, daquele que faria à dona Esther. Pegou a bengala de cana da Índia, do porta-guarda-chuvas, com um belo castão de marfim em forma de escarpim virado. Tinha calçado, um sofrimento de deslocar o lombo!, os sapatos bons de pala de verniz, de orelha de camurça cor de rola: (mas os saltos tinham se nivelado à sola, e por duas fendas transversais, sobre os dedos, olhando bem, entreviam-se as meias). Até com as luvas amarelas ele estava: sim. Estava com tudo.
Depois das vultosas despesas do hospital, dos funerais, do túmulo, a instabilidade não o largara um instante: parecia-lhe ter atrás um demônio que o puxava pelos cabelos, que o puxava para baixo, bem para baixo. De modo que, naquela noite, precisou mesmo recorrer à coragem.
Atravessou a ponte de ferro, que oscilava lentamente, à passagem dos carros: o rio, à noite, sob a ponte, incutia-lhe toda vez uma sensação de temor: como se lhe pudesse acontecer de cair ali, de ser arrastado pela correnteza de um verde lívido, das águas tumultuosas. Atingindo a outra margem, pareceu-lhe ter aportado são e salvo. Tomou o 13. O encontro era para as nove. Nem mesmo tinha comido: só de pensar, perdera o apetite. Tinha um papelucho com o endereço. Releu: avenida Michelangelo, nº 281, a uma centena de passos da parada do bonde. Pediu ao cobrador para descer ali. Dos bons propósitos de dona Esther o Malvezzi não duvidava (fora o amigo a "colocá-los em contato": a comentar com ela o seu caso). A ele, então, falara dela muito bem: dera-lhe, pode-se dizer, o empréstimo por garantido. O coração de uma senhora, de uma mulher: que sabe: que intui. Que compreende. Naturalmente... um desconhecido. Mas, já que era ele que o apresentava! E depois... uma pessoa de bem se conhece pela cara. Cavaleiro: aposentado do Estado. Naturalmente, visto que dona Esther... Uma garantia seria bem-vinda. Naturalmente, naturalmente... Oh, a sua Irma devia perdoá-lo. Nunca imaginaria ter que rebaixar-se a tanto. Quando o bonde parou, só para ele, havia uma última réstia de luz no horizonte distante: as andorinhas tinham todas desaparecido do céu: o morcego, na Villa Guidi, já enguirlandara os arcos e a torre com seu vôo cego, pesado, desgarrado: feito um rato com asas.
Os ciprestes meteram-lhe medo. Os sapatos bons, de verniz e de camurça, estalaram ao longo do caminho. As meias, não, não, não iriam dar na vista... através das duas rachaduras da pala: dona Esther não haveria de botar reparo nisso: estava escuro, quase: era noite. Mas do portão um jovem saiu correndo como numa competição de ginástica: como se quisesse alcançar o bonde que se afastara a galope. Não olhou, não diminuiu a marcha, não disse nada: estava escuro: corria como um atleta, esbarrava numa de suas mangas, ao passar: pois é: mas o rosto virado, na direção do bonde que agora desaparecia numa curva. O cavaleiro Barbetti deu mais alguns passos. O jovem deixara aberto o portãozinho: a porta da casa também estava aberta, a luz acesa, dentro: uma luz velha e fraca de vestíbulo. O cavaleiro Barbetti pediu: dá licença?, dá licença?, com toda distinção. Esperava ouvir perguntarem: quem é?, e preparava-se para responder, um amigo! Nada, ninguém. A solidão imprevista, o silêncio e a imprevista imobilidade dos ciprestes deixaram-no aterrorizado. Apalpou com a mão o seu tesouro, a sua "garantia", no bolso do paletó. Mas onde viera parar, àquela hora? naquela escuridão?... Sentiu que a garantia era justamente o que menos o garantiria... na eventualidade... era uma razão a mais, aliás, a mais que de costume... Imagens assustadoras rodearam-no... Sua velhice indefesa... Sua cana da Índia... com o castão de marfim... Recobrou o ânimo, não podia deixar de fazê-lo depois de toda aquela viagem: superou os dois degraus, tirou o chapéu, e aí pediu: dá licença?, entrou. Um gato desceu as escadas precipitadamente, dardejou através do vestíbulo, sumiu. Quem sabe, talvez dona Esther, como algumas vezes sói acontecer às velhas, fosse surda... Ou talvez tivesse passado mal? O jovem estava correndo atrás do médico?... Mas, e o telefone, então?... O cavaleiro subiu, chegou ao patamar das escadas. A porta de um quarto entreaberta: no quarto... a luz acesa. O cavaleiro sentiu... sentiu... que os ouros e as jóias de sua Irma deviam ser empenhados naquela mesma noite, a qualquer preço... E então... Então aproximou-se: com um rapapé, como aquele que uma hora antes saíra-lhe tão bem, diante do espelho. O chapéu na mão, dessa vez, as luvas amarelas, a cana da Índia segurada pelo castão de marfim, pelo escarpim... Pôs nele, no rapapé, toda a distinção, todo o decoro de uma vida. Levantou a cabeça.
Uma coisa horrenda olhou-o da cama: com dois olhos horrendos, fitava-o, de um jeito que o cavaleiro Barbetti jamais vira em sua vida. Parecia estar prestes a vomitar, a velha: a língua, fora da boca, estava enorme, escura: ele teve a impressão de que dona Esther tinha enlouquecido, possuída por um demônio: e que por maldade daquele demônio que a dominava, lá do íntimo, quisesse insultá-lo e fazer-lhe uma desfeita, a ele, à sua falecida Irma, ao sacrifício de ambos, às jóias do casamento. No pescoço, uma espécie de trapo esfiapado... não entendeu o que era... Bracejou com as mãos, com as luvas, com o chapéu, com a cana da Índia... retirou-se... O terror queria petrificá-lo, gostaria de sair correndo... como o outro... Cri, cri faziam-lhe sob os pés os malditos sapatos, ao descer..., cri, cri, cri...
Muitos meses mais tarde, a polícia conseguiu identificar e prender o assassino. Fizeram todo tipo de conjecturas, as pessoas, inventaram todas que quiseram. Das mais variadas, assustaram. Até aquela, mas qual!, de que dona Esther tinha uma queda pelo rapazola. A polícia não, desde o princípio: conhecem o mundo: com o faro, eles o conhecem: mas são gente séria. A polícia achou que o rapazola devia ter tomado alguns empréstimos, da velha, talvez até sem garantia, isto sim: confidências imprudentes, talvez: por isso ele sabia, ou tinha adivinhado, que naquela noite às nove dona Esther "iria receber um cliente": (no caso o cavaleiro Barbetti): e que, portanto, havia dinheiro em casa. Dinheiro! Dois coelhos numa cajadada: cancelamento dos débitos, dinheiro vivo sem recibo.
No processo, além do cavaleiro Barbetti, mais a cana da Índia e os sapatos de verniz (sobre os quais o procurador do ex-rei deteve-se e dissertou longamente, pois que faziam cri cri, e deduzia-se daí que deveriam ter acordado a senhora, a velha: mas aconteceu que não a despertaram de jeito nenhum), além de tudo isso, no processo, veio à baila uma cordinha: não muito velha, e de qualquer modo "muito resistente à tração", como a perícia técnica não deixou de especificar.

Conto extraído do livro "Casamentos Bem Arranjados" (Nova Alexandria).
Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade.

terça-feira, 22 de abril de 2014

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LA BIBLIOTECA DE BABEL Jorge Luis Borges



O UNIVERSO (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente.
A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal.
Uma das faces livres dá para um estreito vestíbulo, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do vestíbulo, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades físicas. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito.
No vestíbulo ha um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para quê essa duplicação ilusória?), prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…
A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante. Como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, talvez do catálogo de catálogos; agora que meus olhos quase não podem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer; a poucas léguas do hexágono em que nasci.
Morto, não faltarão mãos piedosas que me joguem pela balaustrada; minha sepultura será o ar insondável; meu corpo cairá demoradamente e se corromperá e dissolverá no vento gerado pela queda, que é infinita. Afirmo que a Biblioteca é interminável.
Os idealistas argúem que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto ou, pelo menos, de nossa intuição do espaço. Alegam que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (os místicos pretendem que o êxtase lhes revele uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que siga toda a volta das paredes; mas seu testemunho é suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus). Basta-me, por ora, repetir o preceito clássico: “A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível”.
A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta.
Também há letras no dorso de cada livro; essas letras não indicam ou prefiguram o que dirão as páginas. Sei que essa inconexão, certa vez, pareceu misteriosa. Antes de resumir a solução (cuja descoberta, apesar de suas trágicas projeções, é talvez o fato capital da história), quero rememorar alguns axiomas.
O primeiro: a Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o Universo, com seu elegante provimento de prateleiras, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, somente pode ser obra de um deus.
Para perceber a distância que há entre o divino e o humano, basta comparar esses rudes símbolos trémulos que minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas.
O segundo: O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco[1]. Essa comprovação permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura decifrara: a natureza disforme e caótica de quase todos os livros.
Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha ate à última. Outro (muito consultado nesta área) é um simples labirinto de letras, mas a página penúltima diz Oh, tempo tuas pirâmides.
Já se sabe: para uma linha razoável com uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências. (Sei de uma região montanhosa cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas sustentam que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam. Esse ditame, já veremos, não é completamente falaz).
Durante muito tempo, acreditou-se que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem assaz diferente da que falamos agora; é verdade que algumas milhas à direita a língua é dialetal e que noventa andares mais acima é incompreensível.
Tudo isso, repito-o, é verdade, mas quatrocentas e dez páginas de inalteráveis M C V não podem corresponder a nenhum idioma, por dialetal ou rudimentar que seja. Uns insinuaram que cada letra podia influir na subsequente e que o valor de M C V na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série noutra posição de outra página, mas essa vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente essa conjectura foi aceite, ainda que não no sentido em que a formularam seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior[2] deparou com um livro tão confuso quanto os outros, porém que possuía quase duas folhas de linhas homogêneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros lhe afirmaram que em iídiche. Antes de um século pôde ser estabelecido o idioma: um dialeto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico.
Também decifrou-se o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variantes com repetição ilimitada. Esses exemplos permitiram que um bibliotecário de gênio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Esse pensador observou que todos os livros, por diversos que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula as vinte e duas letras do alfabeto.
Também alegou um fato que todos os viajantes confirmaram: “Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos”. Dessas premissas incontrovertíveis deduziu que a Biblioteca é total e que suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos (numero, ainda que vastíssimo, não infinito), ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas.
Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catalogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros; o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens sentiram-se senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse: em algum hexágono. o Universo estava justificado, o Universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança.
Naquele tempo falou-se muito das Vindicações: livros de apologia e de profecia, que para sempre vindicavam os actos de cada homem do Universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu futuro. Milhares de cobiçosos abandonaram o doce hexágono natal e precipitaram-se escadas acima, premidos pelo vão propósito de encontrar sua Vindicação.
Esses peregrinos disputavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, estrangulavam-se nas escadas divinas, jogavam os livros enganosos no fundo dos túneis, morriam despenhados pelos homens de regiões remotas. Outros enlouqueceram… As Vindicações existem (vi duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas talvez não imaginarias) mas os que procuravam não recordavam que a possibilidade de que um homem encontre a sua, ou alguma pérfida variante da sua, é computável em zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verosímil que esses graves mistérios possam explicar-se em palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca produzirá o idioma inaudito que se requer e os vocabulários e gramáticas desse idioma. Faz já quatro séculos que os homens esgotam os hexágonos…
Existem investigadores oficiais, inquisidores. Eu os vi no desempenho de sua função: chegam sempre estafados; falam de uma escada sem degraus que quase os matou; falam de galerias e de escadas com o bibliotecário; ás vezes, pegam o livro mais próximo e o folheiam, á procura de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
A desmedida esperança, sucedeu, como e natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis afigurou-se quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construir, mediante um improvável dom do acaso, esses livros canônicos.
As autoridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas na minha infância vi homens velhos que demoradamente se ocultavam nas latrinas, com alguns discos de metal num fritilo proibido, e debilmente arremedavam a divina desordem.
Outros, inversamente, acreditaram que o primordial era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com fastio um volume e condenavam prateleiras inteiras: a seu furor higiênico, ascético, deve-se a insensata perda de milhões de livros. Seu nome é execrado, mas aqueles que deploram os “tesouros” destruídos por seu frenesi negligenciam dois fatos notórios.
Um: a Biblioteca é tão imensa que toda redução de origem humana resulta infinitesimal. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que apenas diferem por uma letra ou por uma virgula. Contra a opinião geral, atrevo-me a supor que as consequências das depredações cometidas pelos Purificadores foram exageradas graças ao horror que esses fanáticos provocaram. Urgia-lhes o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmesim: livros de formato menor que os naturais; onipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Em alguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus.
Na linguagem desta área persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Muitos peregrinaram á procura d’Ele. Durante um século trilharam em vão os mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B, que indique o lugar de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito…
Em aventuras como essas, prodigalizei e consumi meus anos. Não me parece inverosímil que em alguma prateleira do Universo haja um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem – um só, ainda que seja há mil anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria e a felicidade não estão para mim, que sejam para outros. Que o céu exista, embora meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, Tua enorme Biblioteca Se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e mesmo a humilde e pura coerência) é quase milagrosa exceção. Falam (eu o sei) de “a Biblioteca febril, cujos fortuitos volumes correm o incessante risco de transformar-se em outros e que tudo afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira”.
Essas palavras, que não apenas denunciam a desordem mas que também a exemplificam, provam, evidentemente, seu gosto péssimo e sua desesperada ignorância. De fato, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variantes que permitem os vinte e cinco símbolos ortográficos, porém nem um único disparate absoluto. Inútil observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro intitula-se Trono Penteado, e outro A Cãibra de Gesso e outro Axaxaxas mlö.
Essas proposições, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são passíveis de uma justificativa criptográfica ou alegórica; essa justificativa é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar certos caracteres que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não contenham um terrível sentido. Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e de temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias.
Esta epístola inútil e palavrosa já existe num dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos – e também sua refutação. (Um numero n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; em alguns, o símbolo biblioteca admite a correta definição ubíquo e perdurável sistema de galerias hexagonais, mas biblioteca é pão ou pirâmide ou qualquer outra coisa, e as sete palavras que a definem tem outro valor. Você, que me lê, tem certeza de entender minha linguagem?)
A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou nos fantasmagórica. Conheço distritos em que os jovens se prostram diante dos livros e beijam com barbárie as páginas, mas não sabem decifrar uma única letra.
As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações que inevitavelmente degeneram em bandoleirismo, dizimaram a população. Acredito ter mencionado os suicídios, cada ano mais frequentes. Talvez me enganem a velhice e o temor, mas suspeito que a espécie humana – a única – está por extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
Acabo de escrever infinita. Não interpolei esse adjetivo por costume retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Aqueles que o julgam limitado postulam que em lugares remotos os corredores e escadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar – o que é absurdo. Aqueles que o imaginam sem limites esquecem que os abrange o número possível de livros.
Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). Minha solidão alegra-se com essa elegante esperança.
[1] expressão popular para resplendor.
[2] Mesmo que gupiara, depósito de diamantes.

Texto original:

sábado, 22 de março de 2014

Apachetas

Montículo de piedras, a manera de altar, erigido en honor a la PACHA MAMA. Se lo encuentra comunmente en el noroeste argentino y en Perú y Bolivia. En este último país le denominan apachita y son preferentemente de color blanco. Ante la apacheta los indios dejan sus ofrendas y piden que se aparten las desgracias (chiknis) de su camino y salud para seguir viaje.

apacheta

LA APACHETA, santuario de piedra

Lic. Christian Vitry
"Mandó Topa Inga Yupanqui que los yndios de tierra caliente o los yndios de la cierra fuesen a lo callente, llegasen al apachita [adoratrorio]. En ello adorasen al Pacha Camac [creador del universo] y por señal amontonasen piedra; cada qual llevase una piedra y lo echasen en ella y por señal dexasen flores o paxa torcido a lo esquierdo. Hasta oy lo hazen los yndios deste rreyno este uicio de apachita."
Felipe Guamán Poma de Ayala (1613):236.
Al llegar don Tomás al abra pacientemente se bajó de su mula, sacó de las alforjas una piedra blanca recogida en el camino, una botella de ginebra y un paquete de cigarrillos, mientras masticaba el acullico de coca como queriéndole extraer todo el zumo a las hojas. Se dirigió hacia la apacheta, se arrodilló con un sublime respeto y depositó la piedra en ella. El silencio se adueñó del paisaje y hasta el viento cesó como respetando la ancestral ceremonia del anciano. Tomás abrió la botella de vidrio verde y roció la bebida alcohólica sobre el montículo de piedras, echó un sorbo y la dejó al costado; escupió el acullico de coca sobre la apacheta y encendió un cigarrillo mientras en sus labios se dibujaba la palabra pachamama.
Luego de unas pitadas, corrió una roca de la base de la apacheta y sobre el arenoso terreno introdujo el cigarrillo encendido con el filtro enterrado, como queriéndole dar de fumar a la tierra. Sacó de su bolsillo un puñado de hojas de coca, seleccionó dos o tres y tomándolas con las dos manos, mientras rezaba en voz baja una oración, estiró los brazos dirigió las hojas y su mirada hacia el cielo primero y luego hacia la apacheta, repitiendo esta acción rápidamente unas tres veces, finalmente depositó las hojas entre las blanquecinas rocas del pétreo altar. El cigarrillo se había consumido. El anciano se incorporó, recogió la botella y la introdujo en la alforja, ciñó la montura de su animal aprestándola para el descenso, montó la mula y rompiendo el silencio dijo ¡sigamos!. El viento, cual cómplice del rictus empezó a soplar y el atardecer dibujaba largas sombras en el quebrado paisaje. Todo parecía estar preparado para este diálogo telúrico entre el anciano y la madre tierra, cuyo interlocutor parecía ser la apacheta.
En el mundo andino la roca es un objeto de culto, que posee un simbolismo y trascendencia difíciles de comprender para nuestra mentalidad citadina. Las principales huacas (santuarios o adoratorios) de las culturas precolombinas fueron de roca, sobre ella plasmaron lo que hoy denominamos pinturas rupestres y petroglifos, construyeron geoglifos (motivos y dibujos realizados con rocas sobre el paisaje), las tallaron finamente y realizaron construcciones monumentales, también muchos de sus ídolos eran pétreos, sin contar las montañas y peñascos.

¿Qué son las apachetas y dónde se encuentran?

Las apachetas son montículos artificiales formados por la acumulación intencional de rocas de diferentes tamaños que puedan ser transportadas por lo hombres; su forma es más o menos cónica y se encuentran ubicadas a los costados de las sendas y caminos de la cordillera. Generalmente se hallan en las abras, portezuelos, partes altas de una cuesta y escasamente en lugares llanos.
Los tamaños de las apachetas son muy diversos, ya que van desde pequeños montículos de escasos centímetros de altura con respecto al suelo, hasta enormes volúmenes rocosos cuya base puede llegar a tener un diámetro aproximado de 10 metros y una altura de tres metros; tal es el caso de la apacheta del abra del Acay, una de las más grandes conocidas en los Andes. Poseen una base amplia debido a los permanentes derrumbes y a que no es costumbre reconstruirlas.
No existen estudios científicos realizados sobre las apachetas y muchas veces se las confunde con los mojones, que son similares pero guardan importantes diferencias morfológicas y funcionales, siendo éstos más comunes y numerosos que las apachetas.
Las apachetas son objetos dinámicos en tanto crecen por el aporte de rocas de los caminantes y su tamaño está directamente relacionado con la transitabilidad de la comarca.
Por lo general están formadas por rocas de colores claros provenientes de otros lugares, las que son transportadas por los viajeros con la finalidad de ser depositadas en esos espacios de altura consagrados al culto. Entre las rocas se pueden observar algunas ofrendas modernas como botellas de vidrio, latas de conservas, acullicos de coca, colillas de cigarrillos y huesos de animales. Existen además objetos arqueológicos pertenecientes a las culturas precolombinas, tales como restos de cerámica, lascas e instrumentos líticos entre los más comunes.
Los espacios donde se emplazaron las apachetas, fueron y son considerados sagrados. Lugares construidos y espacios organizados por determinados grupos sociales, quienes los dotaron de significación y, a través de los ritos, renuevan permanentemente su vigencia en el tiempo y confirman su necesidad social. El análisis del lugar donde se construye la apacheta tiene sentido porque fue cargado de sentido, porque en él se identifican los individuos y se relacionan, compartiendo una historia en común.
El antropólogo Marc Augé identifica a éste tipo de lugar como "lugar antropológico", es decir, una "...construcción concreta y simbólica del espacio que no podría por sí sola dar cuenta de las vicisitudes y de las contradicciones de la vida social pero a la cual se refieren todos aquellos a quienes ella les asigna un lugar, por modesto y humilde que sea. Justamente porque toda antropología es antropología de los otros, en otros términos, que el lugar, el lugar antropológico, es al mismo tiempo principio de sentido para aquellos que lo habitan y principio de inteligibilidad para aquel que lo observa." (Augé, 1995:58).
Al estar demarcando cambios espaciales, se desprende con cierta claridad los principios de percepción cultural relacionados a límites transicionales (punqu) como así también a la noción de encuentro (tinqu), por ello, en estos lugares es donde se realizan peticiones y se entregan ofrendas a estos marcadores espaciales que indican el término de un espacio y el inicio de otro. Las peticiones que se realizan en las apachetas están muy relacionadas con el viajero y obviamente con las sendas y el camino, ya que las mismas se relacionan con el descanso, las fuerzas para continuar, la protección, la salud y el permiso para ingresar a un lugar nuevo. (Galdames Rosas. 1990: 21).
Respecto a la elección del lugar de ubicación de las apachetas, el investigador Mostajo opina que: "...las apachetas no señalan los puntos más altos, sino los lugares desde los cuales uno descubría un nuevo horizonte o un accidente capital de la naturaleza". (citado en Hyslop 1992: 204).
La Lic. María Cristina Bianchetti con relación al origen de las apachetas opina que el mismo se encuentra en los "osnos" o altares de sacrificios; "Al respecto dice Santa Cruz Pachacuti que Sinchi Ruca Inca. 2da. Inca, al hacer la conquista de los territorios enviaba a sus capitanes e indios con la orden de construir en las quebradas 'Usnus' que 'son unas piedras puestas como estrado'. Se le dio el nombre de 'apachita' 'y los puso un rito que cada pasajero pasase con piedras grandes para dejar para el dicho efecto necesario ya declarado' ...Y que 'todos los soldados los echasen las cochachos [bolos de coca o acullico], cocas mascados al cerro por donde pasaron'. La creencia general era que 'los apachitas (...) respondía 'Norabuena' ...', permitiéndoles continuar el camino sin dificultades.". (Bianchetti, 1993:14).
Pachacuti Yamqui (1613) opinaba que la apacheta era una invención de los incas; apoyando esta opinión el arqueólogo John Hyslop (1992) comenta al respecto que "...su distribución es a grandes rasgos similar a la del territorio mismo del Tawantinsuyu, y su construcción puede haberse difundido con el crecimiento del sistema vial inkaico".
Es sabido que los incas se preocuparon en dividir, amojonar y marcar de alguna manera el espacio geográfico, no obstante, no existen suficientes pruebas arqueológicas ni documentales como para afirmar que las apachetas surgieron y se distribuyeron con los Incas.
Por lo antedicho se puede inferir que la localización de apachetas responde a ciertos patrones, por lo que resulta factible su reconocimiento y ubicación espacial. Por otra parte queda clara la función religiosa y ritual de estos montículos y su relación con las sendas y caminos. Por último, las características constructivas, la selección deliberada de rocas, los objetos depositados como ofrendas (actuales y arqueológicos) y el "dinamismo" o "crecimiento" directamente proporcional a la transitabilidad de personas por el lugar, hacen de la apacheta un objeto inconfundible. Todos aquellos montículos que no posean estas características no son apachetas, sino mojones.
La apacheta, detrás de su sencilla forma, atesora secretos de la cultura americana que posiblemente nunca lleguemos a conocer ni comprender.
Don Tomás Apaza nos permitió presenciar su ofrenda en un abra ubicada en los contrafuertes del Nevado de Cachi y nada más. Solo silencio y miradas de connivencia.
Hoy, él forma parte de la tierra a la que tanto respetó y veneró durante su vida. Soterradas quedaron las oraciones aprendidas de sus antepasados, como también el secreto de las apachetas.

Fuente:
Diccionario de Mitos y Leyendas - Equipo NAyA
http://www.cuco.com.ar/

http://www.cuco.com.ar/apacheta.htm